No salão nobre do grémio literário fez-se um respeitoso silêncio, como se o próprio salão sentisse o peso do seu estatuto, ou não estivesse ele coroado com as armas da monarquia. A Alekhine, não lhe agradou que as mesas estivessem tão juntas, mas percebeu que não existia outra forma de se disporem, em fila, 60 mesas mesmo num espaço tão generoso como o daquela sala. Os tabuleiros encontravam-se primorosamente alinhados e Alekhine, abaixando-se, espreitou no seu enfiamento e gostou do efeito visual que encontrou. Tivesse a sorte ditado de outra forma e os tabuleiros teriam sido montados com as peças brancas do mesmo lado. A regra fora que Alekhine sentar-se-ia sempre virado para as janelas que davam para a varanda. Falhasse o sorteio em impor quem jogava com as brancas e Alekhine teria reclamado para si essa primazia e em todas as mesas abriria com a mesma jogada! Mais do que a audácia de tal atitude seduzia-lhe o efeito estético obtido. Todas as peças alinhadas, no seu perfeito lugar, e apenas uma casa vazia deixada pelo peão que dera um passo em frente, isolando-se, e ao mesmo tempo em linha com todos os outros peões de todos os outros tabuleiros. Como um reflexo que se reproduz até ao infinito. Podemos não conseguir alcançar certas amplitudes, mas seguramente que as podemos desenhar.
Rezava a lenda que o jogo surgira na Índia, onde um Marajá, sucumbido pelo desgosto da morte do seu filho, lançara um desafio aos sábios do seu reino e reinos vizinhos, para que lhe apresentassem um jogo que o afastasse da sua dor. Como estava magoado com a sorte, não a queria sobre o tabuleiro do jogo. A sorte é a porta que os deuses usam para nos cutucar o juízo e o Marajá não pretendia sujeitar-se mais aos seus caprichos. Foi então que o sábio Sissa presenteou o marajá com um jogo que apenas dependia do raciocínio do jogador e em que todas as peças se comportavam segundo a sua natureza. Do soldado ao rei, toda a corte cabia no seu tabuleiro de jogo, campo de batalha ou recanto de intrigas.
Escapou ao Marajá o facto de se ter deixado à sorte a decisão de quem abria o jogo e agora Alekhine perdera o efeito visual que o elevaria ao domínio da pura poesia.
O acaso fizera soprar por aquelas paragens uma tempestade tropical, à qual, pela sua destruição, não se lhe podia aplicar a palavra sorte. Por isso se dizia ter chegado
O vento aqui o trouxera. Muito do destino dos portugueses se escrevera no vento. Podiam não ser grandes jogadores de xadrez, mas quem se entrega assim na sua sorte ao vento, conquistando o mundo com a mansidão dos bois com que encheram as velas das suas caravelas, só podia ser um povo de afectos, não admira que entre as gentes lusas florescessem poetas.
Uma vez, um jornal alemão, desafiou-o a escrever um artigo destinado a um público jovem. Não entendeu bem o que lhe fora pedido e em vez de um texto leve sobre a teoria do xadrez, escrevera um conto. Imaginara um peão talhado no mais puro marfim pelas mãos do maior artista daqueles tempos. Sobressaía no tabuleiro como se fosse um general e estava tão orgulhoso de si mesmo que quando abriu o jogo, sentiu que só ele estaria à altura daquela jogada inicial. Deixava para trás um mundo inteiro que dependia de si e à sua frente as forças negras do mal encadeavam-se com o seu brilho. Não havia forma mais perfeita de começar um jogo. Avançou novamente, reclamaria para si uma bandeira, quando, mal se apercebendo, um dos peões negros, vindo de um dos lados, lhe cravava fundo a sua espada, caiu ferido de morte olhando todo o campo que se estendia à sua frente, na sua mão sentia firme a bandeira que nunca chegara a ostentar.
O jornal rejeitou o seu texto. Viria a aceitar outros, considerados mais sérios, sobre a problemática do xadrez e como certos povos não estariam à altura do seu desafio intelectual. Mais tarde arrepender-se-ia de, em matéria de artigos para jornais, não se ter ficado só pelo conto.
Os homens foram feitos para o sonho, por isso alcança mais longe quem se orienta pelos ventos, do que aquele que se fixa nas estrelas ou em cartas de marear.
Teria de pensar no que diria ao jornal local, seguramente pouco interessado num discurso técnico sobre o xadrez, que o colocaria fora do alcance dos seus leitores. Elogiaria Coimbra, os portugueses sentem-se sempre inseguros na presença de estrangeiros e esperam pela sua aprovação. Aprovaria Coimbra, então. Diria que pretendia voltar e talvez subir o Mondego numa barca serrana, quem sabe com uma lavadeira por companhia. Responderia à clássica pergunta: se fosse uma peça de xadrez seria um bispo, porque nos acasos da vida nos metemos sempre por caminhos enviesados, e à cautela, que este era um povo de profundo sentir católico, acrescentaria que no seu país o bispo era substituído por um mago. Que por estas terras eram mais tementes a Deus e que sobre o tabuleiro do jogo não deveria correr a sorte, por isso seria um Bispo se a escolha surgisse.
Alekhine estava pronto para começar a jogar.
