quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

O jogador de Xadrez ( IV )

primeiro capítulo

No salão nobre do grémio literário fez-se um respeitoso silêncio, como se o próprio salão sentisse o peso do seu estatuto, ou não estivesse ele coroado com as armas da monarquia. A Alekhine, não lhe agradou que as mesas estivessem tão juntas, mas percebeu que não existia outra forma de se disporem, em fila, 60 mesas mesmo num espaço tão generoso como o daquela sala. Os tabuleiros encontravam-se primorosamente alinhados e Alekhine, abaixando-se, espreitou no seu enfiamento e gostou do efeito visual que encontrou. Tivesse a sorte ditado de outra forma e os tabuleiros teriam sido montados com as peças brancas do mesmo lado. A regra fora que Alekhine sentar-se-ia sempre virado para as janelas que davam para a varanda. Falhasse o sorteio em impor quem jogava com as brancas e Alekhine teria reclamado para si essa primazia e em todas as mesas abriria com a mesma jogada! Mais do que a audácia de tal atitude seduzia-lhe o efeito estético obtido. Todas as peças alinhadas, no seu perfeito lugar, e apenas uma casa vazia deixada pelo peão que dera um passo em frente, isolando-se, e ao mesmo tempo em linha com todos os outros peões de todos os outros tabuleiros. Como um reflexo que se reproduz até ao infinito. Podemos não conseguir alcançar certas amplitudes, mas seguramente que as podemos desenhar.

Rezava a lenda que o jogo surgira na Índia, onde um Marajá, sucumbido pelo desgosto da morte do seu filho, lançara um desafio aos sábios do seu reino e reinos vizinhos, para que lhe apresentassem um jogo que o afastasse da sua dor. Como estava magoado com a sorte, não a queria sobre o tabuleiro do jogo. A sorte é a porta que os deuses usam para nos cutucar o juízo e o Marajá não pretendia sujeitar-se mais aos seus caprichos. Foi então que o sábio Sissa presenteou o marajá com um jogo que apenas dependia do raciocínio do jogador e em que todas as peças se comportavam segundo a sua natureza. Do soldado ao rei, toda a corte cabia no seu tabuleiro de jogo, campo de batalha ou recanto de intrigas.

Escapou ao Marajá o facto de se ter deixado à sorte a decisão de quem abria o jogo e agora Alekhine perdera o efeito visual que o elevaria ao domínio da pura poesia.

O acaso fizera soprar por aquelas paragens uma tempestade tropical, à qual, pela sua destruição, não se lhe podia aplicar a palavra sorte. Por isso se dizia ter chegado em má hora. Já sorte fora Alekhine ter-se cruzado com o conde de Paranhos, quando participava num evento semelhante no Casino do Estoril, embora mais modesto em número, apenas 40 tabuleiros, mas com adversários de maior peso. O conde seduziu o mestre com a descrição da destruição deixada pela tempestade que chegara a Coimbra e logo ali ficou decidido fazer-se um outro encontro em Coimbra para se angariarem fundos. A sedução humana não dispensa a sorte. Talvez o Marajá nunca tivesse saído do seu palácio e desconhecesse que os ventos também podem soprar na nossa direcção. Talvez o sábio Sissa soubesse isso desde o início, mas optara por escondê-lo. Ou não fosse assim tão sábio e desconhecesse que no plano dos afectos os homens não dispensam o que o acaso lhes reserva ou a sorte lhes brinda.

O vento aqui o trouxera. Muito do destino dos portugueses se escrevera no vento. Podiam não ser grandes jogadores de xadrez, mas quem se entrega assim na sua sorte ao vento, conquistando o mundo com a mansidão dos bois com que encheram as velas das suas caravelas, só podia ser um povo de afectos, não admira que entre as gentes lusas florescessem poetas.

Uma vez, um jornal alemão, desafiou-o a escrever um artigo destinado a um público jovem. Não entendeu bem o que lhe fora pedido e em vez de um texto leve sobre a teoria do xadrez, escrevera um conto. Imaginara um peão talhado no mais puro marfim pelas mãos do maior artista daqueles tempos. Sobressaía no tabuleiro como se fosse um general e estava tão orgulhoso de si mesmo que quando abriu o jogo, sentiu que só ele estaria à altura daquela jogada inicial. Deixava para trás um mundo inteiro que dependia de si e à sua frente as forças negras do mal encadeavam-se com o seu brilho. Não havia forma mais perfeita de começar um jogo. Avançou novamente, reclamaria para si uma bandeira, quando, mal se apercebendo, um dos peões negros, vindo de um dos lados, lhe cravava fundo a sua espada, caiu ferido de morte olhando todo o campo que se estendia à sua frente, na sua mão sentia firme a bandeira que nunca chegara a ostentar.

O jornal rejeitou o seu texto. Viria a aceitar outros, considerados mais sérios, sobre a problemática do xadrez e como certos povos não estariam à altura do seu desafio intelectual. Mais tarde arrepender-se-ia de, em matéria de artigos para jornais, não se ter ficado só pelo conto.

Os homens foram feitos para o sonho, por isso alcança mais longe quem se orienta pelos ventos, do que aquele que se fixa nas estrelas ou em cartas de marear.

Teria de pensar no que diria ao jornal local, seguramente pouco interessado num discurso técnico sobre o xadrez, que o colocaria fora do alcance dos seus leitores. Elogiaria Coimbra, os portugueses sentem-se sempre inseguros na presença de estrangeiros e esperam pela sua aprovação. Aprovaria Coimbra, então. Diria que pretendia voltar e talvez subir o Mondego numa barca serrana, quem sabe com uma lavadeira por companhia. Responderia à clássica pergunta: se fosse uma peça de xadrez seria um bispo, porque nos acasos da vida nos metemos sempre por caminhos enviesados, e à cautela, que este era um povo de profundo sentir católico, acrescentaria que no seu país o bispo era substituído por um mago. Que por estas terras eram mais tementes a Deus e que sobre o tabuleiro do jogo não deveria correr a sorte, por isso seria um Bispo se a escolha surgisse.

Alekhine estava pronto para começar a jogar.

sábado, 21 de Novembro de 2009

O jogador de Xadrez ( III )


- A República atingiu-nos como um rastilho. Uma explosão de republicanos caiu sobre nós como fogo de artifício em noite de festa.

O conde de Paranhos relatava esta história com o distanciamento crítico de quem, por condição, se sente acima destes humores políticos, e com um sorriso malicioso prosseguiu.

- Dois jovens, da nossa burguesia local – impunha-se traçar os limites onde as pessoas, por vezes, se deixam iludir na ligeireza do trato – iniciaram uma discussão sobre o destino a dar ao brasão.

D. Nuno defendia que o brasão não devia ser retirado. E D. Manuel, da opinião contrária, achava mesmo que este devia de ser destruído.

Não tendo ganho a contenda resignou-se D. Manuel em continuar a ver o brasão ali mesmo por cima da porta, onde ainda hoje se encontra, e deixou escapar que as paredes serviam para isso mesmo, para ostentarem a decoração da casa, mesmo quando esta era de mau gosto.

D. Nuno, não acreditando no que acabara de ouvir, perante uma tal ofensa aos símbolos da monarquia e em defesa do bom nome da história de Portugal, desafiou o seu adversário para um duelo, ainda lançou a mão ao seu par de luvas, mas D. Manuel antecipando-se enfiou-lhe uma estalada.

O conde de Paranhos riu do gozo que lhe dava imaginar toda aquela cena, onde se atestava de modo indelével, que a burguesia jamais se substituiria à nobreza. E antes que Alekhine aproveitasse a pausa para mudar de assunto, continuou com a sua história.

Acontecia que os contendentes não se punham de acordo sobre quem ganhara o privilégio de escolher as armas para o duelo, se D. Manuel por ter sido desafiado verbalmente por D. Nuno, se este pela via da estalada que recebera.

Não havendo acordo e após alguns insultos, vulgares entre quem não recebeu uma educação de berço, como explicava o conde de Paranhos, seguro de que entre os da sua estirpe nada teria sido assim, lá se decidiram pela cronologia dos eventos e desse modo D. Manuel escolheu como arma o florete. D. Nuno, que teria preferido a pistola, aceitou com relutância.

- Três dias depois, neste mesmo salão, – o conde de Paranhos com um gesto amplo envolveu toda a sala enfatizando a importância história do local onde se encontravam – D. Manuel divertia-se com a total inabilidade de D. Nuno para manejar o florete. Sentindo-se gozado, D. Nuno procurou, com valor, o contacto da arma adversária e ao primeiro sinal de sangue o juiz interrompeu o combate dando a vitória a D. Manuel.

- Mas o brasão manteve-se.

- Sim, D. Manuel acabou por confessar não ter a coragem de retirar o brasão…

- Ficaram amigos? – quis saber Alekhine.

- Ó, sim! Logo que o juiz deu a vitória a D. Manuel e este largou o florete, D. Nuno atirou-se a ele, tendo tudo terminado ao murro e à estalada! Depois disso só podiam ficar amigos.

Alekhine reparou que o conde, no fim, não se deixara rir, o que queria dizer que respeitava a amizade surgida de uma contenda, talvez mesmo de uma noite numa casa de má fama… mesmo entre nobres, existem valores que são comuns a todos os homens. Ser-se nobre é contudo não se deixar contaminar por essa mediania.

Alekhine solicitou ao seu anfitrião que o deixasse só, pois precisava de se concentrar.

- Não sem antes cumprimentar os outros jogadores!

- Mas onde estão eles?

Acompanhado pelo conde, Alekhine subiu os degraus da escada em arco que os levava ao primeiro piso. Aí, um bar servia uma série de salas repletas de curiosos, que haviam comprado o seu bilhete para assistirem ao encontro, rodeados pelos restantes jogadores. Era impossível cumprimentarem-se a todos, pelo que se limitaram a um ligeiro inclinar de cabeças como saudação. Conhecera a maior parte dos seus adversários no jantar de ontem, apenas havia jogado antes contra dois deles. Não existia em Portugal um adversário digno desse nome. Apenas aceitara aquele desafio pelo lado humanitário de angariação de fundos para a ajuda às vítimas da tempestade tropical que, em Fevereiro, atravessara o país, entrando por Lisboa e passando por Coimbra para se esvair aos pés de Espanha. Fora como se todos os ventos que os portugueses haviam aprisionado nas velas das suas caravelas, se tivessem revoltado e decidido regressar para cobrar deste povo os anos de encarceramento a que estiveram sujeitos. Sopraram loucos e em fúria sobre terras onde não existia uma vela para os embalar em consolo de regaço. O resultado fora uma destruição generalizada, arvores caídas, pontes que cederam, telhados arrancados e uma ou outra barraca varrida pela chuva e pelo vento. Uma vaga de solidariedade percorrera o país na medida em que o Estado se mostrava incapaz de acudir a todos e atestando que também os pobres chamam a si a responsabilidade de cuidar dos seus. Alekhine acedera a participar em alguns encontros para angariação de fundos.

E ali estava ele trocando-se de acenos de cabeça com os seus adversários e mais os ilustres convidados. Não tinham cara de jogadores, muitos deles certamente haviam aprendido a jogar xadrez já adultos. Alekhine acreditava que um jogador se formava desde tenra idade e que isso se notava no seu olhar. Partilhava assim com o seu anfitrião a crença num berço; sentia que nem todos os povos estavam ao mesmo nível intelectual. Era o caso dos seus adversários de hoje. Não que lhes sentisse a falta de subtileza, dos que como ele, um dia, haviam desfilado na corte do Czar, acreditava antes tratar-se de algo radical, da mais pesada das heranças, entenda-se a raça. Por isso impusera bater-se em simultâneo contra sessenta jogadores. E tinha-os a todos diante de si. Se erguesse as mãos conseguiria que se ajoelhassem ao seu comando.

Riu com simpatia e segredando um adeus ao ouvido do conde, retirou-se para a sua meditação. Imaginava-se percorrendo as grandes estepes da Rússia que nunca chegara a conhecer, precisava desse sentido de dimensão intemporal que o reclamava como pertença de um mundo superior à mediania rural dos países que visitava. Havia quem se imaginasse em águia ou em voo de pássaro, ele, mesmo em sonhos, precisava de um chão para caminhar, existem homens que só assim se soltam. Voam com os pés assentes no chão que reclamam como seu.


continua


segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

O jogador de Xadrez ( II )


Os seus pés ressentiram-se da falta de um cardado mais generoso que lhe permitisse atacar as pedras escuras da calçada com que a rua íngreme se erguia em direcção à Universidade. Aliás, só existiam mesmo duas direcções possíveis, a subir para a Universidade ou a descer para o rio, lá onde as barcaças e as suas gentes de alpercatas calçadas, como formigas atarefadas, descarregavam tudo o que a cidade precisava. O rio era uma fábrica. A partir dele tudo se elevava até à universidade, numa ordem natural com as suas elites sobranceiras ao comum dos homens. Alekhine arrependia-se de não ter trazido umas botas e procurava que o esforço não o fizesse inclinar-se demasiado para a frente, que também ele tinha o seu conceito de ordem e, nele, um senhor caminha sempre de postura direita.

Dois miúdos aproximaram-se a correr e, com uma mal disfarçada vergonha, colocaram-se a seu lado, tiravam-se de medidas espreitando por cima do ombro e erguendo a cabeça até onde Alekhine se findava em altura; seguramente nunca tinham visto um homem tão alto, de olhos claros e um cabelo que se adivinhava ter sido de um louro vivo, agora já meio esbatido pelo persistente sol português. Impecavelmente vestido, Alekhine era a imagem acabada de um aristocrata ou pelo menos assim surgia aos olhos das gentes simples. Os adultos também o olhavam mas com a reserva própria de quem não se mete na vida dos outros; nesta terra, mesmo incógnito, não conseguia passar despercebido.

Escutou atrás de si algumas vozes que o davam como alemão, como se isso fosse um mau augúrio. Encurtou o passo para lhe permitir manter o fôlego, mas manteve firme a sua intenção de vencer os declives, agora já mais vacilantes, denunciando que a rua se preparava para se deitar à porta do Grémio Literário.

O grémio literário era um antigo palácio ajaezado sobre uma encosta. O seu piso térreo erguia-se acima da rua uns quantos degraus e recebia-o na sua fachada com uma série de portas em arco de pedra talhada. Entrava-se para um grande hall de onde partiam duas escadas que, já ao nível do primeiro piso, se encontravam ao centro. Alekhine atravessou o hall e, passando por baixo do ponto onde as escadas, no piso de cima, se uniam, entrou no salão grande que se desenvolvia em toda a extensão do edifício, com a sua ampla varanda impondo-se como um remate suspenso sobre a encosta. Caminhou até à varanda e foi ver até onde a vista se lhe perdia, e à esquerda encontrou o que restava do castelo da antiga cidadela e lá em baixo o Mondego no seu leve serpentear, como o menear das ancas de uma lavadeira.

- Dr. Alekhine!

Um homem bem constituído e de uma barba irrepreensivelmente aparada dirigiu-se-lhe de sorriso aberto. Era o conde de Paranhos, presidente do Grémio Literário, tinham estado juntos na véspera no jantar de gala do hotel Astória. O conde era um homem afável e tirando partido da sua boa estatura, tomou-o pelo braço e trouxe-o de volta ao salão. Para os portugueses o conde seria considerado um homem alto e Alekhine aprendera a ter isso em mente sempre que necessitava de aludir à estatura dos seus anfitriões. Caminhamos sempre sobre os nossos pés mas traçamos o nosso rumo a partir das referências que colhemos em terras, por vezes estranhas, que nos tocam em sorte calcorrear. Não somos de medidas certas, arriscamos azimutes em compassos cegos.

- Gosta do arranjo que fizemos na sala?

Alekhine reparou então numas bancadas de três degraus encostados à parede da entrada e que permitiriam aos espectadores estarem sentados enquanto assistissem ao encontro.

- Aqui deste lado, que dá para a varanda, as pessoas apenas podem permanecer de pé.

O conde de Paranhos parecia ter tudo previsto e estava confiante no sucesso do evento.

Alekhine observou, sobre a porta de acesso ao salão, um brasão, em baixo relevo, com as armas da monarquia, e que conferia um ar majestoso a toda aquela sala. O seu anfitrião deixou-se rir e explicou que estavam no salão principal da Real Sociedade de Leitura de Coimbra.

- Quando a república foi instaurada os antigos sócios depararam-se com a necessidade de mudar o nome e os estatutos da sociedade…

- Foi assim que surgiu o Grémio Literário…

Antecipou Alekhine, suscitando uma pronta correcção do conde de Paranhos.

- Não foi assim tão simples! Fique o meu amigo ciente que por estas armas – e apontou para o brasão – se bateram dois valorosos associados, naquele que foi o último duelo que se deu oficialmente em Coimbra!

Alekhine apercebeu-se que não havia forma de fugir ao relato do sucedido. Acabara de sacrificar um peão, cedera-o para ganhar o à vontade do seu interlocutor; a antecipação do outro, na vida como no xadrez, faz-se sempre em sacrifício, por isso nas grandes batalhas é a infantaria a primeira a avançar. E nada mais é preciso para se escrever a vermelho a palavra vitória.

continua

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

O jogador de Xadrez ( I )

Alekhine sentiu o frio da manhã esgatanhar-lhe a cara. Era a forma de Coimbra lhe dar os bons dias. Ergueu os olhos em busca do sol, que sabia escasso naquela manhã de Maio, tinham-no avisado que o interior português era mais apagado, no sol e na vida. Só o frio parecia desafiar a pacatez de um país tranquilo pendurado no fim da Europa, pequeno rebordo de Espanha. Um país esquecido pela guerra.

As cidades pareciam-lhe todas iguais, surgiam-lhe sempre debruçadas sobre um rio em declives acentuados. Não existiam cidades planas neste país e nenhuma dispensava o seu rio. A tão pouco chegava o seu conhecimento sobre a terra que o acolhia já há alguns meses. Teria de optar por tomar uma caleche ou por meter as pernas rua acima até ao grémio literário.

O porteiro do hotel aproximou-se solícito:

- Doutor, peço-lhe uma caleche?

Os portugueses eram cordatos com os estrangeiros ou com quem, pela sua postura e forma de vestir, se insinuava pertencer a uma classe superior. Apesar de cultivarem uma humildade salobra, os portugueses mantinham o orgulho de quem dera novos mundos ao mundo, e não aceitavam colocar-se ao serviço de qualquer um, por isso a fasquia fixava-se de doutor para cima. E assim, Alekhine era o senhor doutor, seria um príncipe exilado se insistisse.

Com um gesto da mão dispensou o porteiro, ainda não se sentia à vontade com o português, língua em que já começava a dar os primeiros passos e por vezes lhe adocicava a boca, fazendo-lhe recordar o seu russo nativo. Apetecia-lhe caminhar. Quando abandonasse a larga avenida junto ao rio e metesse pelas ruas mais estreitas, teria de manter as janelas debaixo de uma curta vigilância, pois por estas paragens era frequente as pessoas lançarem o seu lixo directamente para a rua ou nela esvaziarem todo o tipo de recipientes.

Atravessou a avenida para o outro lado e espreitou o rio. Surpreendia-se sempre com os rios; fora do seu país não lhes encontrava a energia do degelo. Por aqui, a cada inverno, os rios limitavam-se a engordar, a esmagar de forma obesa as suas margens, mas mantinham a calma de quem não sente o verdadeiro apelo do mar. Duas barcas serranas estavam presas à margem, dois homens atarefavam-se a descarregar uma delas. Os rios por aqui haviam-se deixado domesticar e tinham-se transformado em estrada, não admira que este povo tenha tentado fazer o mesmo com o mar. Alekhine reparou no varapau que se erguia no meio da barca, em forma de mastro e que servia de suporte a uma vela, agora recolhida. Meditou como regressariam estas barcas rio acima, em contra-corrente, nos dias em que não fizesse vento. Certamente que utilizariam bois para as puxar a partir de uma das margens. Enganava-se Alekhine, eram os próprios elementos da tripulação que se substituíam às bestas e puxavam a barca rio acima à corda. Dizia-se por aqui “puxar o barco à sirga”. Ainda bem que o desconhecia ou teria encontrado mais um motivo para repreender este povo. Não seria muito difícil dispor de uns bois para fazer esse trabalho. Este sempre fora um país que dispensava a inovação à custa da exploração da mão-de-obra barata.

Os mestres mais experientes sabiam que nem sempre podiam deixar ao vento o trabalho de puxar a barca rio acima. Quando o rio se apertava de azedumes, era preciso recolher a vela e puxar o barco à sirga. Seria demasiado arriscado deixar o barco à mercê dos caprichos dos ventos, que no Mondego sopram perigosos e não conhecem direcção, nem se dão conhecer. Não são como os ventos que sopram por esses mares a fora, que têm o instinto migratório das aves e se deixam aprisionar nas velas dos grandes navios, com a mansidão dos bois que, pelas terras que Alekhine conhece, a partir das margens, puxavam os barcos rio acima.

O homem que aprende a domar as obras da Criação, espalha mansidão por esse mundo fora.

Deu costas ao rio e admirou a fachada do Astória. Era sem dúvida um edifício imponente, em pedra branca rasgada por amplas janelas debruadas a varandins de balaustradas em pedra. Informaram-no, à chegada, ser aquele hotel uma das jóias da arquitectura dos anos 20 e que do seu quarto podia adormecer abraçado ao Mondego; o que lhe não sugeriu propriamente uma imagem de conforto, mas desculpou o concierge, certamente esforçado em demonstrar a tão ilustre visitante que, na cidade dos estudantes, a cultura se respira também atrás de um balcão de recepção de hotel.

Baixou os olhos e fixou-se em duas mulheres que passaram por ele à conversa. Levavam à cabeça uma trouxa cheia de roupa suja e os homens da barca saudaram-nas efusivamente. Alekhine percebeu que aquelas mulheres já estavam atrasadas para começarem a tratar do almoço. Levavam à cabeça a roupa que de regresso ao seu lugarejo lavavam para a trazerem de volta na próxima viagem. Reparou nas alpercatas que traziam calçadas; este calçado, com que os pobres contornavam a lei que acabara com os pés descalços, não passava de uma sola tosca com uma tira para a prender ao dedo grande do pé. Não pareciam ser nada confortáveis e não ofereciam qualquer protecção. Realmente Salazar não só mantivera o país fora da guerra como acabara com os pés descalços, só mesmo a miséria lhe parecia resistir…

Aquelas alpercatas ainda lhe pareciam mais rudimentares do que as que vira em Lisboa. A polícia mantinha uma certa tolerância ao não cumprimento da lei dos “pés-descalços”, em particular no que se referia às mulheres e crianças. Seria mesmo discutível se as mulheres do povo deveriam andar ou não calçadas.

Haviam-se revoltado os mestres das barcas contra esta imposição abusiva do estado que, não erradicando a pobreza, comprometia muitos postos de trabalho e o sustento das respectivas famílias, uma vez que nada mais lhes restaria, para salvar as barcas, do que dispensar parte da sua tripulação. O país precisava dos seus pés-descalços para alimentar o seu povo.

A pedra branca do Astória acolheu o sol, se não fosse pelo seu ar clássico seguramente que todo o edifício se teria espreguiçado. O rio, atrás de si, também se não fosse por aquelas duas barcas, os seus homens e mulheres. A natureza sempre foi tímida na presença dos homens, pelo menos quando não está zangada e se deixa acordar em toda a sua fúria.

Era domingo e o rio despira-se de toda a sua azáfama que constituía o seu traje de trabalho e vestira-se de domingueiro, liso e calmo como as vestes de um bispo, mas de um cinzento-escuro sem brilho, nem espelho, de quem se mantém alheio à importância de que fora investido. Ontem, quando chegara, o rio fervilhava de actividade, de barcaças e canoas. Coimbra vivia no seu rio, não admirava que toda a cidade tivesse sido construída a espreitar o Mondego. Era como se fosse uma imensa barcaça que um dia, deixando o rio, se refugiara numa das suas margens. Também por aqui os homens seguem o seu destino à sirga.

Alekhine empreendeu a sua viagem até ao grémio literário.

(continua)

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

A Insónia ( III )

leia aqui o primeiro episódio

O passado, mesmo o mais inocente, espreita-nos como o pecado. A besta esconde-se por lá e vem ao presente resgatar a sua dívida. Carlos Alberto já não era a criança que se desflorava nas criaditas da quinta do Douro, por entre a tolerância das empregadas mais velhas e a complacência da sua mãe que insistia em nada ver. O que acabou por acontecer resolveu-se, com uma empregadita, a sua preferida, devolvida à sua aldeia com um pecúlio que lhe assegurasse um casamento rápido e sem escândalo. A água que corria nos riachos era pura e cristalina, nada ameaçava o equilíbrio entre os senhores e os seus serviçais. Hoje, já nada era assim tão inocente e nem a água dos riachos conservava a pureza desses tempos. Existia uma consciência de si e do mundo que o tornava responsável pelos seus actos. Era o preço a pagar pela liberdade de se ser adulto. Corria mais livre nos tempos da sua meninice.

O conhaque a altas horas no salão principal começara por ser um hábito.

Rosinha estava cada mais atrevida e confessava-lhe querer experimentar as coisas que escutava às mais velhas e agarrando-o, puxando-o, engolia-o na sua boca e gemia enquanto se lhe aplicava. De todas as criaditas do seu tempo, apenas uma aceitava fazer algo fora do convencional, a Rosinha resumia em si todos os seus demónios. Como podia ele resistir às insónias que o assaltavam noites e noites a fio.

Clara Isabel, a princípio começou por se preocupar, a cada manhã apanhava o copo de conhaque do marido e sabia que este tivera mais uma das suas insónias. Sentia-se então culpada por dormir tão bem enquanto o seu marido se passeava pela casa com um copo de conhaque por companhia. Depois, deixou de se preocupar. Tudo decorria dentro da normalidade até ao dia em que a Rosinha o empurrou com brutidade, usando os joelhos, e, apontando para a porta, disse em pânico:

- Senhor doutor estava alguém a espreitar!

Ele virou-se para a porta, mas esta permanecia fechada. Levantou-se e notou com desagrado que se esquecera de a fechar à chave. Ainda se virou para a Rosinha para se certificar se esta estava segura do que dizia.

- Sim, senhor doutor, eu vi a porta a fechar-se. Alguém espreitou cá para dentro.

Carlos Alberto sentiu um nó no fundo da garganta e deixando atrás de si uma Rosinha lavada em lágrimas, lamentando-se da sua má sorte, vestiu-se e saiu. Antes de espreitar o quarto de Clara Isabel, serviu um conhaque e assomando-se à porta, num tom seco mas firme, chamou por ela, mas ela não reagiu, estava a dormir. Espreitou o quarto do mais velho e repetiu o mesmo, este murmurou qualquer coisa como “ainda é cedo” e virou-se para o outro lado continuando no seu sono, o mais novo dormia profundamente. Convenceu-se que a Rosinha se tinha enganado.

Carlos Alberto elogiou a sopa. Fazia-o muitas das vezes para entusiasmar os filhos a comê-la, mas esta noite a sopa estava invulgarmente boa.

- Ah! – exclamou Clara Isabel, como se tivesse esquecido de qualquer coisa. – Eu ainda não te apresentei a Clotilde, pois não?

E virando-se para a empregada que os servia, uma mulher alta e magra que aparentava uns quarenta anos, apresentou-a:

- Clotilde, cumprimente aqui o senhor doutor.

A Clotilde fez uma pequena vénia e esboçou um cumprimento sem o leve toque de um sorriso. Carlos Alberto retribuiu o cumprimento e dirigindo-se à mulher fez votos para que a Clotilde fizesse mais vezes a sopa.

- Não te preocupes. – respondeu-lhe secamente. – A Clotilde é a nova empregada da noite.

Carlos Alberto ia-se engasgando com aquela notícia dada assim de forma tão abrupta, já em facto consumado. Era verdade que nunca se metia nesses assuntos, a criadagem era da exclusiva responsabilidade da Clara Isabel e ele não interferia. Apesar de arder em curiosidade não se atrevia a pedir explicações à mulher. Isso seria demasiado arriscado, o melhor era mesmo esquecer o assunto. Era óbvio que se as coisas tivessem continuado tudo teria acabado da pior forma. Clara Isabel, atestando as suas qualidades de boa dona de casa, pusera um ponto final no assunto sem mais questões. Fitou-a, sim, tinha que lhe agradecer isso.

O mais novo veio no entanto satisfazer-lhe a curiosidade, pelo menos em parte.

- Ó mãe o que é que aconteceu à Rosinha?

- Teve que regressar à terra para ajudar os pais. – e olhando para Carlos Alberto – parece que tem a mãe muito doente.

Sentindo-se visado directamente, ele limitou-se a balbuciar:

- Espero que lhe tenhas dado uma ajuda no fecho das contas…

- Não te preocupes, fui muito generosa e incluí todos os extras.

Não havia agora dúvidas, fora a Clara Isabel quem os espreitara naquela noite. Jurou a si mesmo que nunca mais se meteria com uma empregada de noite e claro que a esposa, adivinhando-lhe os gostos, nunca mais contrataria uma miudinha do campo para fazer as noites.

A boa notícia era que Carlos Alberto se curara definitivamente das suas insónias.

sábado, 17 de Outubro de 2009

A Insónia ( II )

leia aqui o primeiro episódio

Abriu o frigorífico e retirou a garrafa de leite, deixou que o vidro tilintasse, não se coibiu de fazer barulho, estava certo que ela estava à sua espera. Começou a encher o copo quando sentiu um vulto atrás de si, deu um salto e verteu parte do leite pela bancada da cozinha. Rosinha também se assustou.

- Cruzes, credo! Senhor doutor, não o queria assustar.

Ele fitou-a ainda com a garrafa de leite na mão e ficou feliz por a ver em camisa de dormir, não colocara nada por cima, nem um xaile, aquilo sim era uma promessa, e o seu entusiasmo descontrolou-se e não havia como o esconder. A Rosinha levou as mãos à cara e deixou escapar um “Senhor doutor!”, meio envergonhada.

E ele sentiu-se atraído por aquela vergonha de mulher, que sabia o que vinha a seguir, o que lhe esperava. Colocou a garrafa sobre a bancada e aproximou-se da criadita, que o fitava com os olhos esbugalhados, por entre os dedos sapudos, como se não acreditasse que tudo estivesse a decorrer tão de pressa. Segurou-lhe os pulsos e afastou-lhe as mãos da cara. Mesmo naquela penumbra podia ver-lhe as faces rosadas e os lábios grossos, que lhe conferiam os traços de uma moça do campo, e o peito, descoberto por uma camisa de dormir que não fora abotoada até acima, marcava o ritmo da respiração, arfava entre o receio e a excitação.

Rosinha era a promessa pela qual se levantara. Mergulhou os lábios na sua boca e ela susteve a respiração sem saber o que fazer, ou o que lhe era pedido. Ele introduziu-lhe a língua na boca e aspirou aquele hálito a sopa de cebola, misturado com o cheiro a corpo, lixívia e sabão azul e branco. O cheiro das sopeiras da sua adolescência. Nunca esqueceria aquele cheiro nem a forma como isso lhe sabia a sexo, a excitação. Apalpou-a por cima da camisa de dormir, sentindo-lhe um corpo rechonchudo e um ventre flácido, subiu a mão e apertou-lhe um mamilo, não era uma mulher bem-feita, estava muito longe do corpo firme e bem torneado das coristas do Parque Mayer. A Rosinha era apenas uma miúda que transpirava a meninice e a sopeira, e aí, nesse pecado, construía ele o seu paraíso.

Empurrou-a para o quarto do fundo e ela deixou-se levar. Nunca tinha estado dentro do quarto das empregadas e estranhou o frio que aí se fazia sentir, embora soubesse que esta parte da casa não dispunha de aquecimento central. Os aposentos das empregadas não dispunham das comodidades senhoriais e nem a casa de banho tinha água quente, aquele não era um local para os senhores da casa. Tudo lhe parecia recordar que se devia retirar. Mas já a Rosinha se estava a acomodar na cama e puxava a camisa de dormir para cima. Ele fez questão que ela se despisse, queria mordiscar-lhes os mamilos enquanto ganhava posição em cima dela. Ela mostrava alguma prática, contendo-se nos gemidos e soltando-se na forma como o recebeu, segura do prazer que tinha para dar e ele gemeu e guinchou como o fizera na sua primeira vez, com uma das criaditas da casa do Douro.

Bebeu um conhaque sentado no cadeirão do salão. Era um homem feito, já não era o adolescente estreante das férias grandes na casa do Douro. Sorriu. Podia ter as melhores coristas, mas era aquela miúda que, de ar boçal e corpo deslavado, lhe fazia perder a cabeça. E Clara Isabel, logo ali, tão perto a dormir. E os miúdos nos seus quartos. Uma loucura!

Estava certo que todos entenderiam um desvario com uma corista, agora com uma criada e logo debaixo do mesmo tecto em que dormia com a sua família, isso seria uma vergonha e não deixou de sentir um arrepio. No seu íntimo sabia que voltaria a repetir. Precisava de voltar a mergulhar na Rosinha e no seu cheiro a sopeira da sua adolescência, o que pode um homem desejar mais do que o regresso aos seus tempos de rapaz? O que seria isso senão um vislumbre de eternidade? Bebeu um gole do conhaque e fechou os olhos, no seu nariz sentia ainda a presença da Rosinha, da sua juventude e da sua perdição. Sem dar por isso acabara de rezar uma oração, sim que também os pecadores são homens de oração.

Clara Isabel ressonava, podia escutá-la.

continua

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

A Insónia ( I )

Deslizou para fora da cama com a suavidade de uma promessa. Clara Isabel dormia. Adivinhou-lhe o semblante por entre a penumbra. Nunca era noite, Clara Isabel detestava uma casa mergulhada na escuridão, vertia sempre alguma da claridade subtraída à iluminação pública através dos estores milimetricamente ajustados e reposteiros não corridos na sua integra.
Não precisava de a ver, conhecia-lhe o rosto na perfeição, os olhos papudos, o duplo queixo e a pele áspera; a silhueta perfeita da ausência de uma promessa.
Perdera tudo com a segunda gravidez. Um parto difícil que a deixara incapacitada de conceber, e com isso sentira que deixara de ser mulher. Pelo menos passara a acreditar nisso. Continuara a cuidar do seu aspecto, do cabelo, das unhas e da sua forma de vestir. Mas ficara-se apenas por ser mãe e esposa na sociedade.
Conhecera-a no fulgor da sua juventude, se é que o termo se pode aplicar a uma menina de boas famílias que obteve desde logo a aprovação da sua mãe. Não os unira uma grande paixão. Clara Isabel queria libertar-se de uma família castradora e isso passava por tomar-se de marido. E Carlos Alberto tinha um olhar distraído e meio perdido. Não lhe parecera um homem possessivo ou de interferir nas coisas da casa. Alguém que lhe concederia o seu espaço e a liberdade de dispor dos seus dias. A tanto aspirava Clara Isabel, e não lhe foi difícil apaixonar-se por ele: jovem, seguro, elegante e com aquele olhar distraído. Ela sorriu-lhe abertamente na festa de casamento de uma prima comum e, antes que alguém se adiantasse, tomou-lhe o braço e foi-lhe mostrar o lago de peixes que havia no meio do jardim da quinta do Cabris. Carlos Alberto sentiu-se homem e pensou que aquela bem que podia ser a mulher que o acompanharia como sua esposa. Obteria facilmente a aprovação da mãe e seguramente surpreenderia o pai pela assertividade da sua escolha. Como todos os homens não precisou de se apaixonar para a pedir em casamento. E Clara Isabel tornou-se sua esposa e da sua casa fez os seus domínios.
O segundo filho trouxera-lhe um excesso de peso que ficou, e uma má hora carregou-lhe o humor para sempre. Só parecia divertir-se nos chás de fim de tarde com as suas amigas. O casamento católico e a força da tradição mantinha-os na mesma cama. O chão sagrado será sempre construído em território comum sobre o qual nos deitamos.
Levantou-se, e caminhou até à porta, deteve-se por breves instantes, tentando escutar-lhe alguma alteração na sua respiração. Nada, Clara Isabel dormia profundamente. Ele não chegara a adormecer sobre a profunda excitação que sentia, como nos seus tempos de adolescência em que perseguia as criaditas pela casa, noite adentro. Pensou em ir à casa de banho, mas o entusiasmo que sentia, logo abaixo da sua cintura, tornava isso impraticável.
Atravessou o pequeno hall que servia os quartos e a casa de banho e entrou no corredor que o levava à cozinha. À sua direita encontrava-se o salão de estar, podia-o ver com uma nitidez surpreendente. As janelas, de reposteiros recolhidos, filtravam uma luz difusa carregada de prata, a cor de todas as insónias. Um filme a preto e branco, como os seus sonhos, tinha tomado por cenário o salão da sua casa. Não se surpreenderia se visse desfilar Bela Lugosi num dos seus papéis de vampiro.
Clara Isabel queixava-se da casa do Douro, mais fria, despida das comodidades lisboetas e mais escura, mergulhada numa imensa noite, na escuridão da natureza no seu estado quase puro. A inocência, enquanto não desflorada pelo homem, é assim de uma escuridão impenetrável. A prata era a luz do pecado. Clara Isabel sentia-se bem assim.
Antes de chegar ao fim do corredor virou à esquerda. Fechou a porta atrás de si e o frio da cozinha acolheu-o como um estalo. Aquela era a parte da casa reservada à criadagem. Ao fundo da cozinha estava a sala da lavandaria e depois os aposentos da criada de noite. Abriu o frigorífico e retirou a garrafa de leite, deixou que o vidro tilintasse ao retirá-la, não se coibiu de fazer barulho, estava certo que ela estava à sua espera.